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CALIMÉRIO SOARES. O Grande Órgão “Cavaillé-Coll” da Catedral Metropolitana de Campinas, São Paulo, Brasil

O Grande Órgão “Cavaillé-Coll” da Catedral Metropolitana de Campinas, São Paulo, Brasil (1)

            Calimério Soares (a)

Considerado o maior Cavaillé-Coll do Estado de São Paulo, o órgão foi instalado na Catedral de Campinas em 1883. Segundo um comentário sobre “O órgão no Brasil”, de autoria da organista Dorotéa Kerr e Elisa Freixo, ocorreu um fato curioso referente a esse instrumento, de que havia sido encomendado originalmente por uma igreja no Egito. Devido a uma revolução que estourara na época, o instrumento para lá transportado e os técnicos retornaram à França. Cavaillé-Coll havia recebido do Brasil o pedido de um instrumento um pouco menor. Para não ter prejuízo total, enviou aquele órgão ao Brasil pelo preço de um instrumento menor.

Do trabalho intitulado “A Catedral e o Bispado”, de autoria do professor Celso Maria de Mello Pupo, transcrevemos o que se segue:
(…) a Câmara Municipal de obter isenção de impostos alfandegários para trezentas cadeiras, um órgão e tres lustres comprados na Europa, o que lhe foi concedido em 1883, chegando as cadeiras com elogio da imprensa: a colocação das cadeiras na igreja constitui aqui na província inovação que proporciona grande comodidade às famílias; esse costume é adotado na Europa e em boa hora foi para aqui transportado. Chegou ainda o “grande órgão”, vindo de Paris; custou cerca de quatorze contos de réis e é o maior que existe nesta província e será armado por um artista que virá expressamente para esse fim.

Entre 1885/86 deu-se a complementação e restauro do templo. Segue o relato: “Importante restauro marcou o ano de 1885/1886 referente ao precioso órgão da Matriz nova, que, instalado não revelou suas anunciadas qualidades, o que provocou censuras à escolha que dele havia feito o Eng. Ramos de Azevedo, porém elogiados após a restauração feita pelo talento, conhecimento e habilidade de Antônio Carlos Sampaio Peixoto, a pedido do vigário Cônego Cipião, como noticiou a imprensa:

A causa principal da falsa opinião que se formou relativamente ao órgão era originada da falta de conhecimento de seu mecanismo. Desde que o instrumento foi armado, havia nele cerca de 30 tubos que não emitiam sons e nunca se pôde conseguir afinar os outros perfeita e completamente. O atual vigário da Paróquia, Revdo. Cônego Cipião, em boa hora lembrou-se de confiar o instrumento ao Sr. Antônio Carlos de Sampaio Peixoto que, como apaixonado amante da arte, estudou minuciosamente o órgão até conseguir assenhorar-se de todos os seus segredos. Os tubos que estavam inutilizados funcionam hoje perfeitamente, bastando para isso desentupi-los, pois era essa a razão que os impedia de emitir sons. Havia apenas um tubo de madeira que estava de fato inutilizado, porém já se encomendou outro para o fabricante, devendo em breve ser colocado no respectivo lugar. O órgão é de tres teclados, sendo dois tocados com as mãos e um para os graves tocado com os pés. Possui 16 registros: Clairon, Trompette, Basson-Hautbois, Viola Di Gamba, Voix Celeste, Cor de Nuit, Flûte Octaviante, Prestant, Montre, Bourdon, Flûte Harmonique, Salicional, Basse, Soubasse, Trompette e Clairon. Estes dois últimos são para os graves para acompanhamento dos tres primeiros, por terem um som especial que os franceses denominam “instrument d’anches”. Todos os registros contém 892 notas musicais. Os instrumento tem seis pedais denominados: Tirasse du Grand Orgue, Tirasse du Recit, Appel de Jeux d’Anches, Expression, Cupole de Deux Claviers e Tremblant. O fabricante do órgão é o Sr. Cavaillé-Coll, de Paris.

Fachada e consola

Trata-se de um lindo móvel em estilo neogótico, onde se desfilam os tubos por entre três “plate-faces” (a central contendo 9 tubos e as laterais contendo 7 tubos cada), ladeadas por dois torreões triangulares contendo três tubos grandes cada. As bocas dos tubos ascendem formando um semicírculo a partir dos tubos maiores e centrais. A parte superior da fachada é coroada por um belo frontão em forma de torres triangulares, adornadas por flechas e incrustações no estilo “gothique flamboyant”. A fachada em si apresenta grande harmonia arquitetônica, graciosa e majestosa.

Consola

A consola, separada do móvel do instrumento, possui dois teclados manuais de 56 notas cada, com a extensão de Dó a Sol e um teclado de pedais (pedaleira) plano, com 30 notas, na extensão de Dó a Fá. A distribuição dos registros é feita em três degraus existentes em ambos os lados dos teclados manuais. A disposição é a seguinte:

1º Degrau (desde baixo): Registros do pedal

à esquerda: Basse 8’, Soubasse 16’
à direita: Trompette 8’, Clairon 4’

2º Degrau: registros do Grande Órgão (ou I Manual)

à esquerda: Prestant 4’, Montre 8’ e o puxador de “Sonnette”, com o qual se dava o aviso ao entoador para que iniciasse a acionar os foles do instrumento
à direita: Bourdon 16’, Flûte Harmonique 8’, Salicional 8’

3º Degrau: registros do Recitativo (ou II Manual)

à esquerda: Clairon 4’, Trompette 8’ e Basson-Hautbois 8’
à direita: Viole de Gambe 8’, Voix Celeste 8’, Cor de Nuit 8’ e Flûte Octaviante 4’


Pisas e Pedais

Sobre a pedaleira, a consola apresenta 5 pisas metálicas e o pedal que aciona a báscula da caixa expressiva (também chamado de “pedal de expressão”). À esquerda do pedal de expressão, situam-se as seguintes pisas: Acoplamento Pedal-I / Acoplamento Pedal-II / Apelo dos Jogos de Palhetas. As pisas direitas são: Acoplamento I-II e Tremolo.

Recursos Sonoros

   a. Esquema Geral de disposição:
Jogos de Fundo Palhetas

II Manual
(Récit)

Viole de gambe 8′
Voix Celeste 8′
Cor de Nuit 8′
Flûte Harmonique 4′

Trompette 8′
Basson-Hautbois 8′
Clairon 4

I Manual
(Grand Orgue)

Bourdon 16′
Montre 8′
Flûte Harmonique 8′
Salicional 8′
Prestant 4′

Pedal

Soubasse 16′
Basse 8′

Trompette 8′
Clairon 4′


   b. Resumo:

      Total de Registros: 16
      Total de Registros de fundo: 11
      Total de Registros de palhetas: 05
      Registros de 16’: 02
      Registros de 8’: 10
      Registros de 4’: 04

   c. Observações:

A disposição deste belíssimo instrumento é tipicamente romântica, como a maioria dos órgãos Cavaillé-Coll trazidos para o Brasil. Dentro de seu caráter puramente romântico, o instrumento apresenta equilíbrio notável de recursos sonoros. Não possui nenhum registro de “mistura” ou de “mutação”. No Grande Órgão (I Manual), encontramos os quatro registros básicos de fundo em 16’, 8’ e 4’, mais o Salicional, pertencente à família das “cordas”. Esta disposição facilita uma combinação de acoplamento (p.e., Flûte Harmonique 8’ e Salicional 8’) para um solo executado no Récit (II Manual) com um Trompette 8’ ou Basson-Hautbois 8’ (a partir da extensão média) ou qualquer outra combinação que favoreça solos no Grande Órgão com os Principais em 8’ e 4’, acompanhados pela Gambe 8’ e Voix Celeste 8’ do Récit.

Toda a beleza dos registros flautados é enriquecida pela força e clareza dos registros d’anches (encerrados na caixa expressiva), quando da execução dos tutti dos majestosos e imponentes musicais. Para a execução dos corais de Bach e similares, encontramos no pedal registros de cantantes de 8’ e 4’ para os respectivos solos do tenor. Assim, este belo instrumento está apto a executar praticamente toda a literatura organística do Barroco e grande parte da romântica. E, por não deixar de dizer, da literatura contemporânea também.

Estado Geral do Instrumento

O instrumento apresenta-se em bom estado de conservação, possuindo ainda a consola original (o que não acontece com o Cavaillé-Coll da paróquia de Jundiaí). O sistema de tração mecânica necessita de revisão cuidadosa, a fim de corrigir uma série de ruídos quando em funcionamento. Os jogos de palhetas necessitam talvez de uma revisão ou limpeza, a fim de igualar melhor o timbre entre uns e outros tubos. O pedal de expressão que aciona a báscula da caixa expressiva não está funcionando no momento. Entregue aos cuidados de uma firma ou organeiro respeitável, uma boa manutenção daria ao instrumento condições de um sempre perfeito funcionamento nestes 100 anos de existência.

_______________

a. CALIMÉRIO SOARES é compositor, cravista, organista e professor adjunto da UFU. Doutor em Música pela Universidade de Leeds, Inglaterra. É membro da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, da Associação Aristide Cavaillé-Coll de Paris e membro-fundador da Associação Brasileira de Organistas.
1. Calimério Soares. O grande órgão ‘Cavaillé-Coll’ da Catedral Metropolitana de Campinas, São Paulo, Brasil. Revista Goiana de Artes, jan./jun. 1984. Disponível em nossa seção de textos.
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