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MOACYR P. RIGUEIRO. O órgão da Paróquia de Santo Inácio de Loiola na Vila Mariana, São Paulo - SP

O órgão da Paróquia de Santo Inácio de Loiola na Vila Mariana
São Paulo - SP
Brindley & Company, 1925
(Sheffield, Inglaterra)


Moacyr P. Rigueiro


Desde 1990, quando foi nomeado pároco, o Pe. Manoel C. Quinta ssp procurava um órgão de tubos para a igreja. Após dois anos de buscas infrutíferas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, encontrou um instrumento à venda no Rio de Janeiro.

O órgão pertencia à Igreja Episcopal (Anglicana) e estava instalado na Paróquia de Todos os Santos, em Icaraí, Niterói. Iniciamos as negociações com o Pastor da Igreja de Cristo, em Botafogo, no dia 8 de agosto de 1992, quando ficou de contatar os demais interessados na compra do instrumento. Visitamos o órgão na manhã do dia seguinte, domingo, para saber se era proporcional às medidas do coro da Paróquia de Santo Inácio. O órgão estava instalado numa capela lateral de pequenas dimensões, de maneira que somente parte da fachada era visível. Estando em más condições de conservação, com sinais de umidade e ataque de cupins, o órgão não pode ser testado, pois não estava mais em funcionamento naquele templo. De volta à Igreja em Botafogo, o pastor informou que a outra igreja evangélica de Niterói não havia manifestado mais interesse pelo instrumento.

Assim, em 9 de agosto de 1992 o órgão foi comprado pela Pia Sociedade de São Paulo (Congregação dos padres e irmãos paulinos). Terminou de ser desmontado no dia 29 do mesmo mês e chegou à paróquia no dia 30.

Em fevereiro de 1993 tiveram início as obras de restauração e montagem, a cargo dos organeiros Warwick Kerr Júnior e João Palmyro de Sousa.

Apesar de ter estado sem funcionar por muito tempo, atacado por cupins e pela umidade, não sofreu danos irreparáveis. Cinqüenta litros de inseticida foram gastos na descupinização, através de pulverizações e injeções diretas nos orifícios da madeira, que foi restaurada com massa plástica. Todos os antigos condutores de ar feitos de chumbo, exceto os do interior da console, foram substituídos por mangueiras de plástico flexível. O soprador inglês original foi substituído por um novo mais possante e os condutores de ar trocados por tubos de PVC. Todas as bolsas de couro foram substituídas por novas de pelica alemã. Os tubos, felizmente, estavam praticamente intactos.

Em 6 de março de 1993 iniciou-se a instalação no coro especialmente reformado, com a colocação dos reservatórios de ar, dos someiros e da console. Mais de dois terços dos recursos para restauração e reformas para instalação no coro foram provenientes das ofertas dos paroquianos, e o restante de auxílio conseguido junto à diocese de Colônia, na Alemanha.

No dia 6 de junho de 1993, na festa da Santíssima Trindade, o órgão foi solenemente consagrado à Santíssima Trindade pelo Pe. Manoel Quinta, durante a missa das 18:00h (concelebrada por Pe. Arno Brustolin, então Superior Provincial dos paulinos no Brasil e Pe. José Dias Goulart, vigário paroquial), sendo organista Sérgio de Carvalho Oliveira. Inaugurado com o Prelúdio e fuga em do maior (BWV 545) de Johann Sebastian Bach, tem sido desde então usado regularmente na liturgia e em concertos.

Possui 13 registros reais, dois manuais de 61 teclas e pedaleira radial plana de 30 notas. A tração é pneumática. Todos os 719 tubos são de metal.

O órgão soa forte e possui um timbre vigoroso, brilhante, com um volume sonoro excepcional para um instrumento de seu porte. Com a excelente acústica da igreja, causa a impressão de se ouvir um instrumento de grandes dimensões.

A pressão do ar na console é suficiente para manter uma boa resposta dos teclados, mesmo com todos os registros e acoplamentos acionados, não existindo os atrasos de resposta tão comuns em órgãos de tração pneumática.

A caixa expressiva original, irremediavelmente perdida, foi substituída por uma nova.

O órgão tem características típicas do órgão inglês, porém com influências do estilo alemão (a console, a disposição cromática dos tubos nos someiros, as tampas com feltro para afinação e a notação alemã nos tubos do Flautino: A# =H). O Flautino é prova da efetiva colaboração de Schulze ou de outra família alemã de nome Otto, que também trabalhou com Brindley.

A console talvez não seja original. O suporte de partituras das consloles inglesas dificilmente é vasado. Pode ter sido substituida posteriormente ou poderia ser alemã. Salvador Lanzillota deixou uma plaquinha de resina plástica com seu nome, mas membros da igreja de Niterói disseram que a placa original, desaparecida, era dourada.

Disposição:

Pedal: Subbass16’
Pedal Flute8’
Great:Open diapason8’    (primeira oitava na fachada)
Principal4’
Dulciana8’   (13 primeiras notas na fachada)
Hohl flute8’
Flautino2’
Swell:Principal Geigen8’
Harmonic Flute4’
Gamba8’
Voix celeste8’    (a partir da 2a oitava)
Gedeckt8’
Horn8’
Crescendo
Acoplamentos:P/I, P/II
I/II 16’
I/II 8’
I/II 4’
II/II 16’
II/II 4’


O CONSTRUTOR:

A partir da compra do órgão iniciamos pesquisa para descobrir a história e o construtor do instrumento. Nenhuma informação sobre o histórico do órgão pôde ser encontrada nos arquivos da Paróquia de Todos os Santos de Niterói nem na Igreja de Cristo em Botafogo; tampouco em jornais da época.

Duas únicas pistas foram encontradas: um dos tubos da Dulciana na fachada traz uma inscrição feita à mão – J. Ryan, Sheffield, May 1925 – além da grafia incorreta nos tubos da Voix Celeste (está grafado Viox Celeste).

Baseados nessas inscrições, no início de 1998 consultamos Stephen Bicknell, historiador de órgãos em Londres (autor do livro “The History of the English Organ”, Cambrige University Press) que considerou a possibilidade de ter sido construído por Brindley & Foster. Ele confirmou ter encontrado esse mesmo erro de grafia da Voix Celeste em outro órgão Brindley na Inglaterra.

A hipótese foi confirmada em 1999 pelo encontro de uma foto do antigo soprador, onde se pode ler Brindley & Company.

Mais informações sobre o construtor nos chegaram por intermédio de David C. Wickens (ex-arquivista do British Organ Archive), que se baseou na monografia de Joshua R. Knott sobre Brindley (A Study of Brindley and Foster Organbuilders of Sheffield – 1854-1939, publicada em 1973, com segunda edição revista em 1985, esgotada).

Conseguimos, por intermédio do Pe. Andrew Pudussery ssp, uma cópia autorizada do original, que se encontra na Real Biblioteca de Música de Londres; assim conseguimos as informações complementares. O livro foi recentemente reeditado em 2012.

Nosso órgão é mencionado por Knott (pg. 100): “BRAZIL – an organ shipped to a church in Rio de Janeiro in the late 1920s (no details). Probably the last organ exported by B&F – Before shipment, the organ was demonstrated in the erecting shop before an invited audience.” (Brasil – um órgão embarcou para uma igreja no Rio de Janeiro no final da década de 1920 – sem detalhes. Provavelmente o último órgão exportado por B&F – Antes do embarque, o órgão foi demonstrado na fábrica para convidados).

Na mesma página há referência a um órgão na Argentina de 2 manuais e 10 registros, também com todos os tubos de metal, que teria sido enviado para a Igreja de San Salvador em Belgrano, Buenos Aires. Temos informações de que esse órgão, construído em 1936, foi posteriormente ampliado com adição de tubos de um Wurlizer, estando atualmente instalado na capela do Colégio La Salle em Florida, Buenos Aires (informações transmitidas por Rafael L. Ferreyra, Organista Titular da Basílica do Sagrado Coração em Buenos Aires). Dessa maneira, o órgão da Paróquia Santo Inácio é o único órgão Brindley nas Américas.

Consultado sobre a conveniência de se substituir a console e eletrificar o órgão para solucionar os problemas dos acoplamentos com defeitos (II/P, II/II 16’e I/II 16’), Stephen Bicknell desaconselhou qualquer alteração no instrumento.

A FIRMA:

Após estudar com Edmund Schulze em Paulinzelle, na Alemanha, Charles Brindley retornou à Inglaterra e fundou a firma construtora de órgãos para igrejas. Foi Brindley quem trouxe para a Inglaterra as escalas de construção para os registros Holh Flöte e Gedackt. Em 1867 associou-se a Albert Healey Foster, um especialista na afinação de registros de lingüeta, formando a Brindley & Foster.

Brindley e Foster além de adotarem o método alemão de construção, empregaram vários trabalhadores alemães (entre eles o próprio Schulze, seu irmão Carl Schulze e C. Rudolf Otto, seu cunhado) e importavam materiais da Alemanha. Alcançaram grande sucesso comercial e produziram centenas de órgãos até a Primeira Guerra Mundial, a maioria deles de tração pneumática.

Não sabemos ao certo quantos órgãos foram construídos, mas em 1902 temos registro do Opus 2040 (pag. 41).

Knott elenca cerca de 800 instrumentos, o que pode corresponder a um terço da produção da firma. Tal produção, diz ele, justifica a inclusão de Brindley na história dos construtores de órgãos da Inglaterra.

Em 1880 Brindley iniciou no campo da tração pneumática e em 1884 alegou ser o primeiro construtor a utilizá-la em toda a ação do órgão; em 1889 registrou uma patente de tração pneumática intercambiável, que chamou de metecótica (repetição compartilhada, em grego), que permitia uma enorme possibilidade de combinações e memórias de registrações. Esses sistemas de tração pneumática receberam, segundo Knott, críticas de outros construtores e de restauradores, porém nunca de organistas. Outras críticas eram dirigidas à adição de zinco nas ligas dos Principais e Diapasões, apesar dos bons resultados sonoros.

Charles morreu em 1887, e seu filho, Charles Friederick Brindley assumiu a direção da firma, continuando o desenvolvimento da tração pneumática. Em 1904 criaram o sistema Charles Brindley, usado no órgão da catedral de Sheffield (3 manuais, pedal, 54 registros e 86 botões de comandos), que funcionou por mais de 30 anos sem defeito algum.

A oficina era grande e contava até com sistema de aquecedores para o inverno, para facilitar o manuseio das ligas de metais para os tubos. Havia funcionários que demonstravam os órgãos recém-construídos, de modo que os compradores e seus consultores podiam ouvir e testar o instrumento num recital. Uma marcha (B & F March, composta por T. W. Hanforth, organista da catedral de Sheffield – cuja partitura o Sr. Knott perdeu durante a II Guerra Mundial) era tocada como despedida do órgão, que era então desmontado e embalado para o transporte.

Em 1925, com a morte de Charles F. Brindley, seu filho Charles Bloom Brindley assumiu a direção da firma, que passou a se chamar Brindley & Company.

A firma existiu até 10 de março de 1939, quando foi comprada pela firma Willis. Charles Bloom Brindley morreu em 1944, aos 52 anos.
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