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CALIMÉRIO SOARES. O órgão “Cavaillé-Coll” da Igreja do Senhor do Bom Jesus do Brás, São Paulo

Os órgãos ‘Cavaillé-Coll’ das Igrejas do Senhor do Bom Jesus do Brás e São José do Ipiranga na cidade de São Paulo e da Igreja da Ordem Terceira do Carmo – Salvador – Bahia – Brasil (1)

            Calimério Soares (a)

1.1. Histórico

De acordo com um “Contrato de Compra e Venda com reserva de Domínio”, passado no Cartório de Registro de Títulos e Documentos, lê-se: “UM ORGAM marca “A. CAVAILLÉ COLL” – PARIS movido a electrecidade e a manoal, tendo 500 tubos (vozes) mais ou menos de estanho virgem e madeira, 8 registros, pedalheira, teclado com 4/8 e em caixa de carvalho tudo em perfeito estado de conservação posto na Igreja do Braz”.

Mais abaixo, o preço: “15.000$000 (QUINZE CONTOS DE RÉIS)”. O documento encontra-se sem data e está assinado apenas pelo Vigário do Brás. Pela data que se lê nas “estampilhas federais (1934-1936)”, supomos ter sido o órgão adquirido entre os anos de 1935/38, aproximadamente.

É interessante notar a singularidade deste instrumento. Possui apenas um teclado manual de 54 teclas e pedaleira de 20 teclas, portanto, com uma oitava e meia de extensão. O sistema de tração deveria ter sido mecânico, dadas as peculiaridades específicas da consola para tal finalidade. De acordo com informações existentes no “Catálogo dos Órgãos no Brasil” (elaborado pela organista Dorotéa Machado Kerr (b) como parte de sua tese de Mestrado), o sistema de tração foi transformado em pneumático por Nicolau Lorusso, por volta de 1950. A consola, pedaleira e banco, realmente, parecem originais. O móvel do órgão também parece original, inclusive, deixando-se perceber que ali poderia ter havido uma “caixa expressiva”, anteriormente àquela reforma. Seria, portanto, um instrumento maior, com dois manuais e pedaleira.

O documento de compra e venda carece de dados, principalmente, a respeito de quem foi comprado instrumento!

Consultando um recente documento proveniente de Paris e publicado na Alemanha por Gilbert Huybens (c), parece-nos que o órgão pedido à firma Cavaillé-Coll em 12/07/1875, com um manual e 6 1/2 registros, poderia ser este instrumento instalado atualmente na Paróquia do Brás.

O instrumento sofreu modificações na reforma de 1950, sendo que os puxadores de registro foram substituídos. Alguns registros também foram alterados.

1.2. Fachada

Constituída por uma grande moldura apresentando cinco “plate faces”, possui duas laterais com 11 tubos cada, uma central com 9 tubos em estilo ogival, ladeada por duas menores com 4 tubos cada.

Nas laterais, as bocas dos tubos perfilam-se horizontalmente. Nas central e menores que a ladeiam, as bocas dos tubos ascendem em forma semicircular.

No alto, ao centro da fachada, encontra-se uma cruz ladeada por 6 flechas. O frontão é levemente entalhado em estilo neogótico.

Comparada aos demais instrumentos de fatura Cavaillé-Coll que para cá vieram, a fachada apresenta grande simplicidade arquitetônica.

1.3. Consola

Com um único teclado manual de 54 teclas, na extensão de Dó a Fá e pedaleira de 20 teclas, na extensão de Dó a Sol (uma oitava e meia), esta pequena consola é bastante singular. As plaquetas dos registros perfilam-se horizontalmente acima do teclado.

Os registros são os seguintes: Subbass 16’, Bourdon 8’, Pedal/Manual. Principal 8’, Octave 4’, Flûte 8’, Prestant 4’, Voix Celeste 8’, Doublette 4’, Sub Octave, Super Octave, Trompette 8’, Tremblant.

1.4. Recursos Sonoros

   a) Esquema geral de disposição:
  Jogos de Fundo Mutações Lingüetas

MANUAL
(G.O.)

Principal 8'
Octave 4' (soa 2')
Flûte 8'
Prestant 4'
Voix Celeste 8'
Doublette 4' (soa 2')
   Trompette 8'
PEDAL Subbass 16'
Bourdon 8'
   

   b) Resumo:

      Total de Registros – 09
      Total de Registros de Fundo – 08
      Total de registros de lingüetas – 01
      Registro de 16’ – 01
      Registro de 8’ – 05
      Registro de 4’ – 01
      Registros de 2’ – 02

   c) Observações:

O instrumento presta-se mais ao acompanhamento dos cânticos litúrgicos, podendo-se fazer alguns solos, tendo em vista as limitações da extensão do teclado manual e da pedaleira.

Há alguns registros alterados, como, por exemplo, a Octave 4’ soa 2’ (na verdade um Flautim 2’) e a Doublette 4’ soa corretamente 2’, apenas com indicação incorreta na plaqueta.

1.5. Estado geral do instrumento

O estado geral deste pequeno, porém retalhado instrumento é bastante ruim. Não obstante a reforma feita em 1984 por Lucas Bertucca Filho, várias conexões encontram-se desativadas, havendo muitos tubos emudecidos e mesmo timbrando mal e a desafinação é total.

Se houvesse assistência periódica de um técnico em organaria, este instrumento poderia soar razoavelmente bem ainda por muitos e muitos anos. Resgatá-lo aos moldes originais seria impossível, pois muito poucas peças originais existem.

_______________
a. CALIMERIO SOARES é compositor, cravista, organista e professor adjunto da UFU. Doutor em Música pela Universidade de Leeds, Inglaterra. É membro da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, da Associação Aristide Cavaillé-Coll de Paris e membro-fundador da Associação Brasileira de Organistas.
b. KERR, Dorotéa Machado. Possíveis Causas do Declínio do Órgão no Brasil. Rio de Janeiro, Escola de Música da UFRJ, 1985. P. 405.
c. HUYBENS, Gilbert. Liste des travaux exécutés par Aristide Cavaillé-Coll. Lauffen, ISO Information, 1985. P. 52-53.
1. [(Calimério Soares. Os órgãos ‘Cavaillé-Coll’ das Igrejas do Senhor do Bom Jesus do Brás e São José do Ipiranga na cidade de São Paulo e da Igreja da Ordem Terceira do Carmo (Salvador – Bahia). Revista Goiana de Artes, jan./dez. 1989. Disponível em nossa seção de textos.
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